quarta-feira, 5 de maio de 2021

Paulo Gustavo: asma não é considerada fator de risco para Covid-19

 

  • O ator expressou sua preocupação com a doença por ter problema respiratório

O humorista, apresentador, ator e roteirista Paulo Gustavo morreu na terça-feira, 4, em decorrência da Covid-19, após mais de 40 dias internado. O artista tinha apenas 42 anos e nenhuma comorbidade. Durante a quarentena, antes de se infectar, Paulo Gustavo disse que tinha medo da Covid-19 por ter uma doença respiratória.

“Eu tenho problema respiratório. […] Cada hora, você vê uma notícia nova. Tenho medo de pegar isso”, disse em entrevista à Ingrid Guimarães, na sétima temporada do programa Além da Conta.

O ator tinha asma leve e controlada, caracterizada por crises esporádicas, o que, segundo especialistas ouvidos por VEJA, não é considerado um fator de risco para a doença. Entretanto, a asma grave, em especial quando não tratada, pode agravar a Covid-19, em especial em pessoas mais velhas.

“A asma leve e bem controlada não é fator de risco para a Covid-19 grave. Há algumas evidências de agências que falam da asma moderada e grave como fator de risco para hospitalização e morte por Covi-19. Além disso, entre os pacientes asmáticos, os que têm risco de ter doenças mais graves são os mais velhos e com comorbidades. Mas isso é próximo da população em geral, não parece ser exclusivo da asma”, diz o infectologista e especialista em saúde pública, Gerson Salvador.

A asma é uma doença crônica inflamatória que aumenta o risco de infecções respiratórias, como a gripe. Por isso, no início da pandemia acreditava-se que ela também seria um fator de risco importante para a Covid-19. O que não foi confirmado até hoje. “Não tenho visto casos graves de Covid-19 em pessoas com asma e mesmo na literatura, hoje, a asma não é considerada um fator de risco importante para a doença”, diz o pneumologista Elie Fiss, professor titular de pneumologia da Faculdade de Medicina do ABC e coordenador do Centro de Pneumologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo.

Em uma revisão de estudos sobre o assunto, a Organização Mundial da Saúde (OMS), diz que ainda não está claro “se a asma aumenta o risco de infecção ou resultados graves da Covid-19”.  “As revisões sistemáticas não detectam um claro aumento no risco”, conclui o documento.

Uma orientação produzida pela Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) em conjunto com a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai) sobre asma durante a pandemia também afirma que a doença por si só não está associada a a piores desfechos de Covid-19, a não ser nos casos mais graves.

Ainda não se sabe por que a asma agrava infecções por influenza, o vírus causador da gripe, mas não pelo novo coronavírus. De acordo com o pneumologista Elie Fiss, as principais hipóteses para explicar o fenômeno incluem a possibilidade da inflamação pulmonar causada pela asma alterar o receptor ECA1, usado pelo coronavírus para invadir a célula, de forma a impedir a entrada do vírus, e o próprio tratamento da doença em si, que pode proteger contra a Covid-19.

Mas essas são apenas hipóteses, ainda não há nada confirmado. Por outro lado, o que está cada vez mais claro entre especialistas é que mesmo pessoas jovens e saudáveis podem desenvolver quadros graves de Covid-19 e morrer em decorrência da doença. “Na minha experiência, a asma não está se concretizando como um fator de risco para a Covid-19. Talvez até o contrário. Em compensação, temos visto um número cada vez maior de pacientes jovens e sem comorbidades com Covid-19 grave e não sabemos o porquê disso”, diz o pneumologista.

terça-feira, 4 de maio de 2021

CPI da Covid: Bolsonaro foi alertado das consequências de não ouvir a ciência, diz Mandetta

4 maio 2021, 12:45 -03 Atualizado Há 1 hora

O ministro Luiz Henrique Mandetta presta depoimento à CPI

CRÉDITO,TV SENADO

Legenda da foto,

Mandetta presta depoimento na CPI nesta terça

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta presta depoimento nesta terça (04/05) a senadores na CPI da Covid, que investiga ações de omissões de autoridades na pandemia.

Questionado pelos senadores se houve alguma proposta técnica do presidente Jair Bolsonaro ao ministério quando estava na pasta, Mandetta afirmou que não e que "o que havia ali era um mal estar".

"O que havia ali era um outro caminho, que ele decidiu, não sei se através de outras pessoas ou por conta própria", afirmou. "Era muito constrangedor explicar porque o ministério estava indo por um caminho e o presidente por outro."

Mandetta também afirmou que Bolsonaro foi alertado das consequências de não ouvir a ciência, inclusive com a projeção de alto número de mortes caso as medidas indicadas pela OMS não fossem seguidas.

"Todas as recomendações, as fiz. Em público, nos boletins, nos conselhos de ministros, diretamente ao presidente, a todos os secretários de Saúde", afirmou Mandetta. "Nunca tive discussão áspera, mas sempre coloquei (as recomendações) de maneira muito clara."

Também afirmou que o isolamento social teria sido uma medida adequada no início da pandemia, quando era ministro. "Naquele momento era fundamental que se fizesse uma fala una em relação à prevenção e que se fizesse o isolamento", afirmou.

"Primeiro porque tínhamos baixo número de casos. E porque essa doença entrou pelos ricos, estava no hospital Albert Einstein, no hospital Sírio-Libanês."

O senador Renan Calheiros lembrou que o presidente da República se colocou contra o isolamento e defendeu o chamado "isolamento vertical", que seria apenas isolar idosos e vulneráveis.

Mandetta já havia dito durante a sessão que uma das mentiras que o ministério teve que combater foi a "teoria de isolamento vertical" (de isolar apenas idosos) — algo que era defendido pelo presidente Bolsonaro.

O foco dos senadores é descobrir o quanto Bolsonaro interferiu nas ações do ministério e se a postura de Bolsonaro contribuiu para a aceleração do contágio e do número de mortes causadas pelo coronavírus no Brasil, que já superam 400 mil. A Comissão Parlamentar de Inquérito é composta majoritariamente por senadores oposicionistas e independentes, com 4 dos 11 senadores governistas.

Mandetta afirmou que não foi diretamente pressionado pelo presidente a tomar medidas contrárias ao que era recomendado pela ciência, mas que foi publicamente confrontado, o "que dava uma informação dúbia à sociedade".

"Sim, a postura (do presidente) trouxe um impacto (negativo). Você tem que ter, na pandemia, uma fala única. Esse vírus ataca a sociedade como um todo. Ele ataca o sistema de saúde a ponto de derrubá-lo", afirmou.

O depoimento de Mandetta na CPI começou com atraso, porque a sessão virou campo de batalha entre governistas e opositores.

Os senadores governistas pediram para fazer uma questão de ordem e reclamaram do fato de que os primeiros depoimentos são relativos à investigação das ações do governo federal. Eles queriam que houvesse alternância de depoimentos de pessoas que depusessem em relação à investigação sobre uso de recursos para o combate à pandemia nos Estados.

O ex-ministro Nelson Teich, que ficou menos de um mês no cargo após Mandetta e saiu pelos mesmos motivos, também será ouvido.