quinta-feira, 27 de julho de 2017

Presos fingem ser médicos, ligam e pedem dinheiro para exames As vítimas são os parentes de pacientes internados em estado grave. Eles enganavam funcionários de hospitais para ter informação de pacientes.

A polícia do Rio identificou uma quadrilha que aplicava um golpe em pessoas que têm parentes hospitalizados e em estado grave. Usando um telefone celular, presos fingiam ser médicos e se aproveitavam do desespero e da fragilidade dessas famílias.

Os avisos nos hospitais são o alerta de um golpe cruel.

Golpista: Aqui quem fala contigo é o doutor Marcelo Arantes, médico e diretor clínico aqui do hospital. Tudo bem?

Vítima: Sim.

Golpista: Eu venho através dessa ligação não para repassar uma boa notícia para vocês familiares.

Vítima: Não! Espera, espera que eu tô chegando aí.

Golpista: Ele não faleceu, calma, mantenha a calma, que eu preciso da senhora calma nesse momento.

O golpista diz que o paciente piorou e precisa de exames com urgência.

Vítima: Pode fazer. Pode fazer, doutor. O mais rápido possível, pelo amor de Deus.

Golpista: Mantenha a calma, por favor. As sete tomografias, incluindo os antibióticos que o paciente vai fazer uso após as tomografias “ficou” no valor de R$ 9.800.

Vítima: Pode fazer.

Golpista: Pode fazer, né.

Vítima: Mas vocês só fazem o procedimento depois de ter efetuado o pagamento?

Golpista: Olha, infelizmente sim

O falso médico pede um depósito.

Golpista: Vá pra agência bancária e, chegando lá, eu repasso a conta, o senhor efetua o pagamento e venha pro hospital pra gente dar início.

Vítima: Eu não tenho R$ 9 mil na minha conta assim.

Golpista: Qual o valor que o senhor tem de imediato?

Vítima: Eu não sei. Eu não sei, meu amigo.

O discurso é sempre o mesmo, com palavras complicadas.

Golpista: Nós vamos ter que submeter o paciente ainda agora, com extrema urgência, a sete tomografias computadorizadas LKF 3D de última geração. Se não realizar as tomografias ainda agora o paciente pode “vim” a óbito.

Os erros de português chamam a atenção.

Golpista: É uma hemorragia ainda não generalizada, situada próximo “a pâncreas” e ao fígado. O hospital hoje, no imediato, ele não disponibiliza do “amparato” pra estar cobrindo e realizando no ato do imediato como o paciente necessita. Se no decorrer desse prazo esta hemorragia venha a se alastrar ou se “explandir” pelo corpo do paciente, pode ser que venha a ocasionar até uma “multiplica” falência de órgãos.

Algumas vítimas desconfiam.

Vítima: O senhor deve ter me mandado algum dado errado. A conta tá em nome de pessoa física.

Golpista: Isso, mas é da pessoa física. É da doutora Natasha costa.

E quando os parentes percebem que pode ser um golpe, os bandidos ameaçam.

Vítima: Me dá o nome do senhor e a procedência, faça o favor?

Golpista: O senhor tome as providências do senhor, e assim que o senhor “vim” ao hospital, eu te entrego pessoalmente o atestado de óbito dela.

Para conseguir as informações dos pacientes, os bandidos enganavam os funcionários dos hospitais.

Golpista: É o doutor marcos, minha querida, tudo bom? Confirma pra mim o paciente que se encontra aqui no primeiro leito conosco, na unidade, minha querida, da UTI.

Atendente: Da cardio?

Golpista: Sim, sim.

Atendente: Doutor, eu não tenho autorização pra “mim” ficar passando o nome dos pacientes, não.

Golpista: O nosso sistema aqui está dando falha, está... Pra falar a verdade, eu não tô conseguindo nem prescrever, minha querida.

Atendente: Pois é, mas eu não posso passar esse tipo de informação.

Golpista: Não, mas só confirma pra mim o número do pronto-atendimento dela, minha querida. Você já vai tá me ajudando bastante.

Atendente: A última informação é a que eu posso passar pro senhor.

A investigação foi feita pela polícia do Rio de Janeiro porque a maioria das vítimas é da cidade.

A escuta policial durou cinco meses, e mostrou que os criminosos agiam em todo o Brasil, com chips de telefone de vários estados. Mas a quadrilha estava num único lugar: são quatro presos de uma cela da Penitenciária Mata Grande, em Rondonópolis, Mato Grosso.

Eles fizeram mais de 90 mil ligações. Fora da cadeia, comparsas sacavam o dinheiro nas agências bancárias. O bando faturava até R$ 200 mil por mês com o golpe.

Golpista: Fica na ativa aí, que na hora que ela falar que “tá na mão, doutor”, nós “liga” pra você.
Golpista: Falou, então.
Golpista: Então fica na ativa aí, que nós “vai” ganhar um dinheiro agorinha.
Golpista: Ô, Catatau, tem R$ 6 mil, vai lá sacar.
Golpista: “Demorô”.

Os golpistas debochavam.

Golpista: Tem gente burra demais.
Golpista: Não é que o povo é burro, é que “nós” conversa bem demais.

A delegacia de Copacabana monitorou caixas eletrônicos e prendeu quatro pessoas em Rondonópolis. Elas captavam contas usadas no golpe, sacavam o dinheiro e enviavam para a cadeia.

Nesta quinta-feira (27) os policiais entraram no presídio e apreenderam cinco celulares. Eles também encontraram o texto que os golpistas repetiam para cada vítima: “Bom dia, doutor Marcelo, aqui é do hospital tal”.

Os presos, que cumpriam pena por roubo à mão armada, agora vão responder também por estelionato e formação de quadrilha.

Uma vítima conseguiu recuperar o dinheiro.

“A gente tá envolvido emocionalmente na situação, e você só pensa em ajudar mesmo a pessoa que você ama, né? Você acaba se sentido culpada e envergonhada de ter sido roubada. Na verdade isso é errado, né? A culpa é do bandido, ele que é o culpado da situação”.

“Eu sempre vou aconselhar que todas as pessoas chequem pessoalmente ou ligando para o hospital. Confirme aquela informação antes de aceitar depositar qualquer tipo de quantia em dinheiro”, orienta o delegado Gabriel Ferrando.

Golpista: Eu vou necessitar, meu querido, de correr contra o tempo agora, nesse momento, pra tá revertendo todo o quadro clínico da dona Ofélia. E vou necessitar da ajuda da família, ok?

Vítima: Pois é, doutor. Deixa eu te perguntar, reverter o quadro clínico dela como, se ela já morreu? Minha mãe faleceu.

A Secretaria de Justiça e Direitos Humanos de Mato Grosso informou que, no primeiro semestre, apreendeu 300 celulares na Penitenciária da Mata Grande, e que está investindo R$ 2,5 na compra de um equipamento que bloqueie os celulares.

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